Sangue jovem reverte envelhecimento tecidual: vai funcionar em humanos?


- Trocar sangue por dieta e exercício? Não seja ridículo Louis!
Soa difícil de acreditar, mas ao que parece existe um pouco de verdade por trás do famoso mito do vampiro. Lendas de séculos passados já relatavam a possibilidade de que a Condessa Bathory (1560-1614), angustiada pelo processo de envelhecimento, banhava-se em sangue de jovens virgens acreditando que este teria um efeito rejuvenescedor. Mais recentemente, o médico russo Alexander Bogdanov (1873-1928), realizou experimentos de transfusão sanguínea buscando o rejuvenescimento. Após realizar 11 transfusões, Bogdanov alegou que o procedimento de fato funcionou, reportando uma melhora em diversos parâmetros como aparência em geral, capacidade de visão e suspensão da calvície. Ironicamente, sua busca pela extensão da vida foi o que a encurtou, uma vez que ele faleceu após adquirir malária e tuberculose em uma de suas transfusões (outras hipóteses sugerem que foi morte devido a incompatibilidade sanguínea). Apesar dessas experiências, nada relevante foi provado até que, recentemente, uma descoberta em estudos utilizando parabiose para estudar células-tronco reviveu essa hipótese, trazendo evidências mais do que intrigantes. 


Parabiose é um conjunto de técnicas cirúrgicas controversas na qual dois organismos vivos são conectados a fim de compartilhar os sistemas circulatórios. Em meados dos anos 60, baseadas nesse procedimento, surgiram as primeiras evidências de que o sistema circulatório de animais jovens tem uma forte influência sobre a saúde e longevidade de animais idosos. Esses estudos só chamaram novamente a atenção quando, em 2005, um grupo tentava entender se o declínio na capacidade regenerativa de idosos é algo irreversível. A surpreendente conclusão demonstrou que as células tronco dos animais idosos (as quais possuem um potencial muito limitado), rejuvenesciam na presença do ambiente jovem e vice-versa. O efeito do sangue jovem sobre o sistema circulatório dos animais idosos foi comprovado em diversos tecidos (músculos, fígado, coração e cérebro), tornando os animais idosos mais fortes, saudáveis e inteligentes. A causa por trás desse efeito reside na presença de fatores moleculares no sangue dos animais jovens que causam alterações nas células tronco dos idosos, fazendo com que estas voltem a se dividir e realizar reparo tecidual. O problema é que existe um número imenso de proteínas que podem estar interagindo para levar a esse efeito e, compreender os mecanismos que causam esse efeito para reproduzir em pacientes humanos é uma tarefa complexa.


O legado desses estudos com parabiose foi a constatação de que, se as pistas bioquímicas contidas no sangue jovem levam a alterações em organismos idosos, possivelmente esses efeitos podem ser induzidos através da transfusão de plasma sanguíneo. Essa ideia foi confirmada por alguns estudos demonstrando que a infusão de plasma jovem em animais idosos leva ao rejuvenescimento tecidual. O fato de essa prática ser comum na clínica minimiza questões éticas para investigação em humanos, fazendo com que os estudos clínicos possam ter início imediato. Já em 2014 foi lançado um teste conduzido pela Alkahest, uma empresa que busca “desenvolver terapias derivadas do sangue e seus componentes com o foco de melhorar a vitalidade e função na terceira idade”. Essa primeira pesquisa está investigando se a infusão de plasma sanguíneo jovem é capaz de desencadear efeitos benéficos em pacientes de Alzheimer. Se os achados em animais forem de fato reproduzíveis em seres humanos, nos próximos anos um futuro sinistro pode acabar tomando forma, onde o sangue poderia quem sabe se tornar uma espécie de commodity! Isso parece já estar começando, uma vez que, uma empresa chamada Ambrosia está cobrando $ 8.000 de um grupo de 600 voluntários interessados em testar os efeitos dessa prática. Entretanto, talvez este seja apenas um debate temporário já que estudos que buscam desvendar quais interações moleculares estão por trás desses efeitos podem levar a criação de drogas capazes de fazer esse serviço de forma menos polêmica.


Referências:



Share on Google Plus

Sobre o Autor

Neurocientista cafeinômano envolvido com projetos que investigam a plasticidade sináptica. Nas horas vagas é abduzido por uma curiosidade extrema sobre as implicações do crescimento tecnológico exponencial que estamos vivenciando. Contato: luis.shgt@gmail.com
    Comentários
    Comente pelo Facebook

0 comments :

Postar um comentário