Biologia sintética e a nova revolução industrial




A Revolução Industrial foi a transição do processo de manufatura para o processo de criação em larga escala utilizando novas formas de energia e o desenvolvimento de novas máquinas. Essa transformação mudou o mundo drasticamente e alguns especialistas acreditam que o mesmo está ocorrendo nesse exato momento através da biologia sintética. A construção de máquinas biológicas capazes de fazer aquilo que decidirmos ser seu propósito ainda está engatinhando mas um evento recente pode acelerar muito seus avanços.


Um grupo de cientistas afirma ter dado um passo em direção a uma nova revolução industrial só que dessa vez, relacionada à criação de fábricas biológicas que poderão ser produzidas em larga escala. Essas “biomáquinas” servirão não só para trabalhar melhorando nossos organismos como também para avanços externos de todo tipo como a produção de biocombustíveis por exemplo.


Para construir um pedaço de maquinaria biológica, os cientistas precisam refazer o DNA em uma célula e observar como ele trabalha... ou precisavam. Uma equipe de cientistas afirma ter desenvolvido um método muito mais rápido que vai permitir a criação de grandes bancos de dados de componentes que possam ser usados para a criação de fábricas biológicas sofisiticadas. A produção em massa de maquinarias biológicas permitirá uma mudança radical no mundo em tudo que é aspecto imaginável.


Até o presente momento, o DNA precisa ser reprogramado para codificar uma mensagem de interesse e enviá-la através de mensageiros (o mRNA para os íntimos) para a maquinaria de montagem da célula (os ribossomos). Os ribossomos pegam a mensagem enviada pelo DNA e constroem a proteína que foram ordenados a construir. Através do novo método apresentado, isso tudo pode ser feito fora da célula utilizando apenas uma solução onde vão estar os blocos necessários para construir aquilo que for de interesse, permitindo a utilização de litros e mais litros desse ambiente contendo uma linha de montagem biológica.


A Biologia Sintética não é um ramo tão tímido quanto aparenta, principalmente desde o anúncio da criação de vida artificial em laboratório. O pioneiro J Craig Venter montou uma sequência genética artificial utilizando o DNA como se fossem peças de lego e criou o genoma de interesse para inserir em uma bactéria. Seu trabalho gerou um certo alarde sobre o mundo e certamente as implicações futuras desse tipo de tecnologia são de tirar o fôlego. Tanto que imediatamente após o anúncio o presidente Barack Obama e o Papa se manifestaram sobre o assunto preocupados com as implicações.


Possivelmente essa nova técnica de produção desenvolvida vai aumentar cada vez mais a velocidade e reduzir os custos da fabricação biológica. Utilizar as linhas de montagem da natureza para criar nossos compostos de interesse em larga escala pode ser uma coisa perigosa nas mãos erradas mas certamente também pode solucionar inúmeros problemas do mundo. Se os autores exageraram em comparar o impacto dessa virada com o que a Revolução Industrial teve no mundo? Acredito que não...


Referências: Nucleic Acids Research
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Sobre o Autor

Neurocientista cafeinômano envolvido com projetos que investigam a plasticidade sináptica. Nas horas vagas é abduzido por uma curiosidade extrema sobre as implicações do crescimento tecnológico exponencial que estamos vivenciando. Contato: luis.shgt@gmail.com
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